Minhas mãos sozinhas
Monólogos de Bartolomeu Dias
na morte de sua esposa
1- Criação: vivem pelas arqueologias do silêncio
reunidos durante as cálidas insinuações
do fogo sobre a pedra
2- Orgasmo: palavras marmóreas aéreas descem
à fixidez do vermelho
3- Morte: sibilina modorra desprende a língua do fruto
nas mutações da chuva o rio engorda
um objecto cortante arde-me frio nos dedos
sei a pulsação do sangue
digo logo para mim essa nuvem
rebente profusa em teu nobre peito
4- Solidão: a solidão transporta o resto para
a penumbra dos esgotos
única musiqueta de todas as maneiras
intransponível
faca
aparecem na babugem os peixes mortos
até isso me vem parar
às minhas mãos sozinhas
Ainda não tinha chegado perto do equilíbrio
o seu acordo ortográfico era um vizinho no
estrangeiro
contudo tinha tangerinas
a balouçar nos dedos
círculos de pólen no espelho
das vontades.
Trazia a uma perna um cão
desamarrado
um camaleão na árvore do seu lugar.
Despedia os domésticos medos cuspindo
bolas transparentes de sabão azul.
Era uma criança com quase 50 anos
já tinha comido mais de metade dos sorvetes.
Ainda não tinha chegado a lado nenhum
(que quererá isto dizer?)
às vezes tinha vontade de ir à praia
apanhar conchas e ventos para
brincar com o mar.
Era um cigano que escrevia.
Olhava o cu das moças nos dias de
Sol
tinha uma deusa escondida na garganta.
Corria de barco de ilha
em ilha de duna em duna
procurando aquilo que os outros
apelidam de felicidade.
Ainda não tinha chegado.

Debruce-se para dentro de nós e entre para o banco de trás. Venha respirar o futuro.
quando inclino o corpo
Quando inclino o corpo para a lentidão
redonda dos teus seios, vejo atentamente
que ainda não respiro o futuro.Sabes,
o pólen cai na boca dos que abrem
o silêncio. Sobra talvez uma fuligem em
cada pulso, levanta-se um leve vento,
mas os dias animados sequer encolhem
quando enlouqueces com as tuas baças
unhas amarelas...
Não é assim a casa desta manhã quando
os pintassilgos folheiam os cardos, e a cama
é devagar ao lado duma fogueira desmaiada.
As cabeças estremecem um pouco no
regresso do sol das dunas, há um navio
que deambula ainda no corpo, na exígua
memória duma guitarra e outras cordas e peixes.
Sim, alguém se debruça para dentro de nós,
quer sacudir a profunda alegria de sermos
uma realidade com sonho aberto...
Todavia temos os castelos que inventámos
após o murmúrio dos pinheiros altos, onde
guardámos as amoras, os medronhos
secos. Bebemos agora a água que resta
doutro vinho, proclamamos a prenhe volição,
a visceral palavra, e embora com uma ramela
a descansar em qualquer labirinto disponível
somos um carrossel de emoções descobrindo
aquilo que pressagiámos durante a vária
areia. Inclinamos o corpo e vemos atentamente
que ainda não respiramos o futuro...
Rui Dias Simão, Maio de 2010, edições CATIVA.
Rui Dias Simão à conversa com Fernando Esteves Pinto
1 – O surrealismo dá-te muito trabalho?
R: Sobretudo à segunda-feira (sorriso)... A escrita é, em mim, quando
acontece, uma terapia lunissolar e estruturante; por isso, uma atitude
de trabalho inicialmente se não vislumbra e evoca.
2 – A desestruturação mental é uma vantagem para um poeta se sentir
confortável num ambiente surreal?
R: Para já, antes pelo contrário... em boa hora, cada anzol, cada peixe;
em suma, é preciso estar muito estruturado para saber finalmente
desestruturar.
3 – Imagina que dividimos uma garrafa em três partes (o fundo da garrafa,
o corpo da garrafa e o gargalo), as quais representam respectivamente
três fases do dia (a manhã, a tarde e a noite). Qual é a fase que te influência
mais no processo criativo?
R: Debaixo da Lua, sem (100) garrafas...
4 – Fala-me dos teus Animais da Cabeça.
R: É um livro que nasce de uns desenhos que fiz por volta do ano 2000,
os quais estiveram longamente pousados sobre um sofá lá de casa,
até que.
5 – O desenho e a pintura são o outro lado dos teus poemas. Correspondem
à clarificação mental do teu imaginário poético. O que vês quando escreves poesia?
R: A mulher, a tal, nua, dentro dos translúcidos espelhos.
6 – Tens consciência de que a tua poesia marca uma atitude, uma linguagem,
que é no essencial a tua própria imagem e comportamento perante a vida e os outros?
R: Tenho. Afinal, talvez não ...
7 – Que realidade entra nos teus poemas?
R: Neste livro ( os animais da cabeça), uma pseudo-realidade quase
fora de si mesma.
8 – Há um diálogo implícito nos teus poemas. Que diálogo é esse e com quem?
R: Só pode ser com o eventual leitor e a literal surdez do mundo.
9 – O teu último livro “Os Animais da Cabeça” é, quanto a mim, um breve tratado psico-filosófico sobre o género humano. É na desconfiguração do quotidiano que investes a tua racionalidade?
R: Parece utópico, mas existe de quando em vez na minha escrita uma
certa irracionalidade a investir no quotidiano.
10 – Em quase todos os teus poemas verifica-se uma linha bem definida de transição entre o sentimento pessimista da vida e o sentimento cómico, risível da vida. Como te defines perante a realidade?
R: Na totalidade dos contrários...
O novo livro do poeta Rui Dias Simão já borbulha, ígneo, nas rotativas do tempo próximo. Poemas do Banco de Trás, assim se nomeará o dito (so?), sairá (saltará) para a luz dos dias nos alvores de 2010. A editora, a de sempre. A que existe para o editar (e celebrar:) Edições Cativa.
A mulher não esmorece perante
a literária lua.
Não levanta um medo para os flancos
da pouca noite.
A claridade, a claridade existe para além
dos escombros do filho que não está.
O corpo é uma praça iluminada
quando caminha com existência
visível.
A lua deita-se com esta mulher diária.
A mulher não adoece perante
a memória lúcida e cega.
Onde a areia branca?


Na introdução de José Carlos Barros
Filmagem e montagem de Adão Contreiras

CulturaRui Dias Simão apresenta livro de poemas «Os animais da cabeça» |
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A apresentação pública do livro «Os animais da cabeça», do poeta algarvio Rui Dias Simão, decorreu em Faro, no Pátio das Letras, na passada sexta-feira. A apresentação do livro, composto por 21 poemas para 21 desenhos, coube a Fernando Esteves Pinto, representante da 4 Águas Editora / Edições Cativa, que chancelou a obra. 9 de Março de 2009 | 15:03
in, Jornal do Barlavento |
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